sábado, 5 de dezembro de 2009

Foucault em um monastério rinzai



Foucault foi ao Japão na primavera de 1978, e permaneceu um tempo (indeterminado) em um monastério rinzai. É impressão minha ou na foto acima (tirada daqui) ele está com um rakusu? Enfim. Detalhe também para a escrita na parede: houve um concurso de caligrafia?

Esta época foi a transição entre A história da sexualidade e o seu interesse, segundo ele já antigo, na volta à antiguidade clássica: o seu seminário A hermenêutica do sujeito, em 1981-82, é um dos mais refrescantes trabalhos de Foucault, onde ele discute e analisa o que chama de técnicas de "cuidado de si" dos estóicos, epicuristas e seu tranbordamento e mudança no cristianismo nascente.

Neste pequeno bate-papo, um tanto carente do vigor foucaultiano, para quem o conhece (educação e modéstica nipônica? ou Foucault simplesmente "ficou zen"?), ele discute, por cima, a diferença entre o misticismo cristão e misticismo zen ("o misticismo em si sendo diferente, mas as técnicas sendo parecidas"), a universalidade do zen, o Ocidente/Europa e a sua "crise" moderna - morte da(s) revolução(ões), fim do marxismo, e assim vai.

Ele estava, evidentemente, mais a fim de perguntar do que de responder.

Dizem os passarinhos que há uma foto dele zentado em zazen: quem a tiver, me mande, por puro fetiche.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As irrespondidas (uma adaptação)

No cânon páli há um episódio (em inglês) em que um bhikkhu pensa com os seus botões: "o Honrado não falou se o universo é eterno ou não, infinito ou não, se o corpo e alma são o mesmo, ou não o são, se um Tathagata existe depois da morte, ou não, ou existe e não existe, ou nem existe e não existe. Não aceito. Se ele não puder me dar uma posição a respeito destas questões eu abandonarei o treinamento."

E assim ele se dirige para o Tathagata e, feitas as devidas amabilidades, desfia o rosário: "se o Honrado sabe que cada uma das afirmações acima é correta, ele pode dizê-lo. Se ele sabe que é incorreta, idem. Mas, se ele não sabe, a coisa mais óbvia a ser feita é admitir 'Eu não sei'". E ameaça abandonar o treinamento.

"Alguma vez", pergunta Buda, "eu te disse que, praticando, vivendo a vida santa comigo, eu te responderia tais questões?"

"Não", responde o bhikkhu ("não, senhor", na tradução. Sempre esqueço destes detalhes.)

"E alguma vez você me disse que iria viver a vida santa comigo se, em retorno, eu te dissesse tais coisas?"

"Não (senhor)".

"Então, seu tolo, por que reclamas? Se alguém colocasse tais condições para a sua prática ele morreria e estas coisas ainda ficariam sem ser ditas ou declaradas pelo Tathagata. É como um homem atingido por uma flecha envenenada que, uma vez na presença do médico, dissesse 'Ninguém vai tirar esta flecha antes que eu saiba tudo sobre a pessoa que a atirou, o material do que é feita, e de como foi atirada'. O homem morreria e as perguntas continuariam sem resposta. [pelo menos para ele]

"A analogia é a mesma: se alguém disser 'eu não praticarei com o Honrado se ele não me disser estas coisas', este alguém morreria e tais coisas não seriam ditas ou declaradas pelo Tathagata. A prática, a vida santa, não depende de cada uma destas concepções; independente de cada uma delas ser verdade ou não, ainda há nascimento, envelhecimento, morte, sofrimento, lamentação, dor, desespero e ansiedade, cujo fim eu faço ser conhecido aqui e agora.

"Então lembre-se do que eu disse como dito, e do que eu não disse como não dito. Sobre todas estas coisas eu não disse nada, não declarei nada. E por que eu não disse nada? Porque não se relacionam com a meta. O que foi que eu disse, que eu declarei? Dukkha, sua origem e seu fim. E por que os declarei? Porque levam à meta. Então lembre-se de que o que eu disse está dito e o que eu não disse não está dito."
Este é um episódio bastante conhecido na literatura budista, e que carrega um símile ainda mais conhecido, o símile da flecha. As questões irrespondidas, em número de 10, aqui, foram ampliadas para 14 - somente adicionando "os dois" ou "nenhum dos dois" às duas primeiras perguntas sobre o universo/cosmos. Ficaram conhecidas como as "14 questões irrespondíveis".

Eu questiono o epíteto "irrespondíveis", e sugiro "irrespondidas". Afinal, esta foi a postura do Buda: a ausência de resposta não necessariamente se alinhava com a impossibilidade de conhecimento. Eu, tampouco, imagino que são necessariamente questões que encontrem respostas - pelo menos tão facilmente.

O importante sublinhar aqui é que este sutra é muitas vezes citado para dizer: "abandone todo o questionamento filosófico, toda a especulação metafísica, pois elas não servem para nada", que muito facilmente pode evoluir para um "não pense", alimentando ainda mais uma postura anti-intelectual encontrada em alguns lugares de prática.

É preciso entender um pouco das sutilezas do diálogo. Se as questões são irrespondíveis, se elas têm ou não resposta, isso não entra em jogo - a não ser para o bhikkhu, provavelmente em sua sede de entendimento, da qual compartilho. O importante é que as questões foram irrespondidas, de um modo bem claro, e por um motivo mais claro ainda, que o Buda relata ao final: o que eu declarei foi dukkha, sua origem e seu fim, a meta que leva ao desprendimento, à paz, ao incondicionado. Para isso, tais questões não ajudam, não são meios hábeis. O que eu disse eu disse, e o que eu disse eu não disse.

Lembremos que, em vários momentos dos sutras budistas, vemos o Buda conversando, dialogando, com algumas das filosofias em voga na sua época: o jainismo, a filosofia samkhya, e diversos outros bramanismos já esquecidos pelo tempo, além dos "hereges". O seu método certamente não é dialético: Buda não quer chegar à definição de algo saindo da dúvida, pois ele já possui a "sabedoria", o "olho que vê", a sabedoria do fim de dukkha, e uma prática para que cada um que deseje desenvolva isto.

Por isso muitas das conversas do Buda com Fulanos ou Sicranos têm este sabor característico: ele sempre argumenta para demonstrar a diferença de tal e tal ponto de vista com relação ao Dhamma, e como tal e tal ponto de vista pode ser maléfico - ou simplesmente inócuo - para o fim de dukkha, e c'est ça. Parece um pouco dogmático, o discurso de alguém que está convicto de possuir uma verdade e quer persuadir, e no fundo é isto mesmo, pois para o budismo o Dhamma é um só - o Dhamma do fim de dukkha, e não uma explicação do mundo.

Então não é surpresa que o Buda seja interrogado pelo bhikkhu como alguém que deveria saber sobre estas coisas "cosmológicas" - e se não soubesse que declarasse ignorância, ora pois, que ela não é pecado. E talvez ele, Buda, não soubesse mesmo responder, eu chuto (embora a literatura nos diga que ele possuía o "olho do Dhamma"). Eu pessoalmente não ficaria infeliz com isto, até mais contente, por me sentir mais próximo deste homem - o sentimento de proximidade é fundamental para mim, não sou atraído por transcendências.

Algumas outras pessoas destacam o fato que Buda prossegue sem responder para evitar cair nos extremos do "é" e "não é", do "eternalismo" e do "niilismo", coisa que vemos ele fazer mais explicitamente em outros sutras vizinhos. A questão é que, para o Buda, qualquer concepção determinada sobre a "realidade" é problemática, pela própria natureza dos conceitos e ideias.

Trago um trecho de outro sutra para apontar esta questão e uma outra (paralela, sem dúvida):
Ocupando-se com coisas que não merecem atenção e não se ocupando com coisas que merecem atenção, ambas, as impurezas que ainda não surgiram, surgem e as impurezas que já surgiram, aumentam.

7. É desta forma que ela se ocupa sem sabedoria: ‘Eu existi no passado? Não existi no passado? O que fui no passado? Como eu era no passado? Tendo sido que, no que me tornei no passado? Existirei no futuro? Não existirei no futuro? O que serei no futuro? Como serei no futuro? Tendo sido que, no que me tornarei no futuro?’ Ou então ela está no seu íntimo perplexa acerca do presente: ‘Eu sou? Eu não sou? O que sou? Como sou? De onde veio este ser? Para onde irá?’

8. Quando ela se ocupa dessa forma, sem sabedoria, uma entre seis idéias surgem nela. A idéia de que ‘um eu existe em mim’ surge como verdadeira e consagrada; ou a idéia de que ‘um eu não existe em mim’ surge como verdadeira e consagrada; ou a idéia de que ‘eu percebo o eu através do eu’ surge como verdadeira e consagrada; ou a idéia de que ‘eu percebo o não-eu através do eu’ surge como verdadeira e consagrada; ou a idéia de que ‘eu percebo o eu através do não-eu’ surge como verdadeira e consagrada; ou então ela tem uma idéia como esta: ‘É esse meu eu que fala e sente e experimenta aqui e ali o resultado de boas e más ações; mas esse meu eu é permanente, interminável, eterno, não sujeito à mudança e que irá durar tanto tempo quanto a eternidade.’ Essas idéias especulativas, bhikkhus, se denominam um emaranhado de idéias, uma confusão de idéias, idéias contorcidas, idéias vacilantes, idéias que agrilhoam. Aprisionado pelas idéias que agrilhoam, a pessoa comum sem instrução não se vê livre do nascimento, envelhecimento e morte, da tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero; ela não se vê livre do sofrimento, eu digo.
Dois momentos: o momento de assombro, perplexidade, dúvida - o mesmo assombro que Platão caracteriza como o começo da filosofia, o necessário para o filosofar, e que Aristóteles deseja sanar por via da enteléquia. É o mesmo assombro básico que caracteriza, para Heidegger, a pergunta fundamental da metafísica: por que as coisas são, em vez de simplesmente não ser? Vale dizer que, em muitos momentos, é o mesmo assombro e dúvida e também exasperação que leva à procura do barquinho budista. O budismo nunca aparece do nada, veja o próprio exemplo de Siddharta.

Segundo momento: o momento da concepção de uma ideia, de uma visão; "isto é assim, aquilo é assado". Ideias que agrilhoam, que prendem, diz o Buda, e que não levam à meta, ao fim de dukkha; são um obstáculo, devem ser removidas.

Embora Buda apresente o primeiro momento como o de pessoas que deixam as impurezas tomar conta da mente, pessoas sem sabedoria, eu me pergunto se tal momento não é necessário, ou, pelo menos, bem-vindo - para pessoas sem sabedoria como a maioria de nós. Momento de dúvida, de assombro, momento de abertura do pensamento - e com pensamento, aqui, não quero dizer somente o encadeamento de idéias e palavras.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Eles também têm um fígado", foi a resposta que um professor de filosofia me deu, anos atrás, quando comentava do meu interesse pelo zen, em um workshop.

Fiquei desgostoso, no momento, pois achava que ele não queria conversa e estava falando aquilo somente por retórica, dada a sua base merleau-pontyana. Rá.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

É preciso um esforcinho

Sesshin (fotos aqui) serve, além de servir para nada, para nos forçar a fazer as coisas de uma maneira que, sem um empurrãozinho, é muito difícil fazer cotidianamente.

O zazen é o exemplo paradigmático, então vamos escolher outro: o oryoki. O oryoki - ato de comer com - é maravilhoso, mas embora o seja, quando é comemos desta forma, simplesmente comendo? O hábito, o cotidiano e a rotina acabam por nos fazer comer já pensando em qualquer outra coisa a ser feita: é muito difícil, mesmo para aqueles que conseguem fazê-lo em outra situação (como o sesshin), fazer isto no meio de um dia qualquer. É preciso um esforcinho.

"Meditando na cozinha", para tomar como exemplo um livro da Sonia: eu mesmo, que adoro cozinhar, me vejo fazendo as coisas de uma forma mais apressada, cheio de atalhos e retalhos mal-feitos, somente para economizar uns minutinhos para voltar para o computador ou qualquer outra coisa. Não admira que acabem entrando nos meus pratos pequenas pedrinhas e areia, de vez em quando.

O "simplesmente fazer", tão glorificado pelos praticantes zen, serve para dar relato verbal desta situação de fazer - ou simplesmente deixar ser feito - o que está acontecendo. Não é uma cabeça vazia ou oca, ou um estado de obediência cega, ou um torpor hipnótico (e, se for, como muitos críticos do zen at war dão a entender, estou fora e deixo para outros). Cortar a salsinha para jogar em cima do arroz recém-cozido: há o movimento da faca e a salsinha. Como haveríamos de cortar uma salsinha sequer, se pensamos que simplesmente cortar uma salsinha é "deixar-se levar"? A faca corta sozinha? Seus dedos cortam a salsinha? A salsinha já está cortada? Caso sim, nenhuma necessidade de cortar salsinha, vamos comer!

Se, contudo, aceitamos que simplesmente cortar a salsinha não é estar avoado, como quase sempre estamos, mas achamos que PRESTAR ATENÇÃO é PRESTAR ATENÇÃO obsessivamente nos mais minúsculos detalhes da ação em questão, incluindo todos os fatores envolvidos, e que a falha neste prestar atenção não é PRESTAR ATENÇÃO, e que as folhinhas de salsinha devem ser cortadas EXATAMENTE de uma determinada forma e EXATAMENTE de um determinado jeito...

Creio que todos nós entendemos isto. Então, vamos comer! (A lentilha do meio, minha nossassora!, foi servida DUAS - 2! - vezes, para felicidade geral.)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Como assoviar e chupar cana ao mesmo tempo


Zen (zazen) é como sexo - dez principais motivos


10. Você pode fazer sozinho, mas é ainda melhor fazer com outras pessoas.

9. Você pode fazer em qualquer lugar, sob qualquer circunstância, mas lugares bonitos e com natureza são ideais.

8. Algumas pessoas insistem que há somente uma única maneira de fazer; estas pessoas devem ser evitadas.

7. Aqueles que mais falam são os que provavelmente menos sabem.

6. Ter flexibilidade é uma vantagem.

5. Cair no sono não é visto com bons olhos.

4. Algumas pessoas gostam de se vestir e usar apetrechos, e outras acham que isso é ridículo; não esnobe até que você tenha tentado.

3. Pessoas diferentes preferem posições diferentes.

2. Nos velhos tempos havia a abordagem gradual e a abordagem súbita, mas atualmente todo mundo quer a abordagem súbita.

1. Você pode ler tudo o que quiser sobre, mas a não ser que você esteja fazendo - ou faça -, você não tem idéia do que seja.

sábado, 3 de outubro de 2009

Haiku de um verão em 200X

Sem data; provavelmente todos escritos nos meses de verão de 2002 ou 2003. Planejava continuar a fazer uma coletânea através das estações, como é costume nas coletâneas de haiku japoneses; porém creio que o mesmo espírito de cegueira e feiúra, aquele que me impede de fazer poesia atualmente, deu as caras. Retirado do arquivo pessoal de textos do autor, que se encontrava no domínio GeoCities e que, por decorrência do cancelamento do serviço de provisão gratuita de espaço online do mesmo, estava em perigo de extinção digital.

*****

O que é um haikai? Haikai é uma forma de poesia japonesa: tercetos de 5, 7 e 5 sílabas poéticas, levemente orientados quanto à forma. O conteúdo? Cabe um universo inteiro, desde um pulo de rã até as moscas da sala. Inicialmente uma forma mais popular e cômica da poesia da aristocracia (e consequente niponicamente rígida e formal), o haikai, através sobretudo da alma de um ex-samurai japonês chamado Basho, adquiriu a suavidade e a beleza de um michi, um do. O caminho da poesia, passo a passo com outros tantos do: sado, kado, kendo, kyudo e last but not least aikido.

Claro está e claro fica que o que chamo de "haikai" pode estar a revirar os olhinhos de Basho no céu das garças (embora eu ache que ele esteja mais feliz que eu, com os meus poemetos). Em primeiro lugar que, lido num livro por aí, vejo que o haikai era uma arte mais ascética, além de plenamente zen. Quer dizer que não se costuma ver "transporte sensual" neste tipo de poesia. Olhólhó: seu Basho, este menino aqui ainda pensa naquilo. Mas deixe estar. Se mentes eruditas dizem que de haikai só a embalagem, chamem do que quiser: epigramas, quadrinhas, versinhos. Tudo uma brincadeira, no melhor dos espíritos.







VERÃO







ninguém escapa ao'castigo;
melhor seria se viessem
falar comigo.







a poesia:
fantasmagoria
do dia.







perto de uma criança,
só vejo meu defeito:
perco o jeito.







do café na mão,
sobe o vapor azulado:
assombração.







desencana:
o chilrear dos pássaros
a tarde não me engana.







noite alta:
se eu pudesse
tocar uma flauta!







[deep at night:
if I could
play on a pipe]







suave pele:
geme o amor, barraca
no fim da tarde.







do canto d'olho
mosquitinhos evolam:
bananas podres







ah, andorinha!
anda, bica e caminha
ah! andorinha...







eita, mormaço!
três ônibus em fila
andam parados







a grama verde
parece pular no mar:
maré baixa







as gaivotas
fincadas na areia
esperam atentas







tarde de sol:
de dentro do ônibus vejo
brilhar a água







d'ônibus descem
em movimento, gente
e verdes campos







longo marulhar
lua no mar tranquilo
mar no mar no mar

Satorir

Escrito bem antes de 2004. Retirado do arquivo pessoal de textos do autor, que se encontrava no domínio GeoCities e que, por decorrência do cancelamento do serviço de provisão gratuita de espaço online do mesmo, estava em perigo de extinção digital.

[excertos do Dicionário Etimológico Languas Pósodernas (3) - amglês, brasílico e guatemedjuco, de Posbor e Glia, d.a. Meeklândia, 00.04560,78, 2173. Com exceção das citações e dos itálicos, a tradução é do texto original.]

SATORIR

Etimologia breve
Origem

A primeira citação do verbo "satorir" data de 2043, na dissertação de nirvanado de Filómeno Bolshoi, na Bodsátvica Academia Budista (BAB) de Palmas, no estado de Tocantins do (então) Brasil. Em sua primeira acepção, de "atingir o satori", foi usado com extrema cautela por Bolshoi; porém, a simplicidade de uso fez com que, paulatinamente, o neologismo fosse cada vez mais citado em obras posteriores. No decorrer de apenas 10 anos, as citações em obras congêneres cresceu em ritmo geométrico, de 3 para 567. O próprio "ó-mula-das-serras-azuis" Guigui Camargo o utilizou com este mesmo significado (e com inconfundível declinação incorreta) na sua célebre frase: "Dizem que satorio... e eu só rio".

[....]

Uso popular

Com a Anistia Leonina de 2079, podemos ouvir, no discurso do neuroteólogo Menes Meneses: "... e asque propêm ilusôs, digam-lhes: estamo atentos e satoriados." Nesta acepção de "não ser, de maneira alguma, suscetível de ser iludido; desperto", foi que "satorir" passou para o discurso popular, assumindo significados mais do que comportava sua original conotação espiritual. Os versos de Tina Lamberte gravaram a palavra nas almas mais ardentes: "Satoró, satoró, satoró / caim tus ropas e eu ací [....]"

Em meados de 2150, "satorir" tinha cerca de 23 significados distintos, entre eles "estar livre de doenças oftamológicas", "ter uma visão justa de mundo", "comportar-se de acordo com padrões éticos inalienáveis", "experimentar um estado de êxtase químico", e outros. Substantivado, o verbo passou a fazer parte de nomes de indústrias (Satoria, indústria de produtos de limpeza e vinho), AVIs (SATORI, SaTorystória, Meeklândia), distinções diplomáticas e religiosas, celebrações e festas civis, nomes próprios (Satorélena, Sator), veículos orbitais (o Satór't de Glivon Kelvin) e práticas sexuais heterodoxas.

[....]

Em 2167, a Associação dos Mundos Cristãos do Sol protestou veementemente contra a inclusão de 45 neologismos com o radical "sator-" no léxico mexicano, alegando a sua "muta granda igaliánza colo palevar 'satan' [....]"; pedido este negado.

Usos atuais

Palerta Umbar nont askeó me ta define inaxata ta relation beetraim tattoo paries. Aldo me fenso que neam satored, tara sebim considera ta moron lata caralió.
Wicca Tsur-lilú

Domentetoigostasatorantuum, sarapiquáratara?
Pustacamustainstitusta (HILI - Highly-Inflected Languages Institute)

Ai, ce calour... poesce estote satoriremos a la uontás pir pir pintim caipir, cé Deus!, deusdará manhatam préstel di carne.
Blec Maria Coleridge

Cê? As putas? As ónicas criaturas satoradas teste país bostalho estas porras aci [....]
Maria Claria Deeneez

*****

[segue a conjugação do verbo satorir extraído da Gramática? Universal? Brasileira?, de 2147; famosa por incluir as já obsoletas e abandonadas formas verbais em tu e vós, vestígios do final da época colonial do século XX]

...

sábado, 26 de setembro de 2009

अनिच्चा


foto de Clark Little

A transitoriedade dos fenômenos não é ponto de chegada, mas sim ponto de partida da reflexão.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Nós continuamos tentando


II.46. sthirasukham āsanam

"Āsana: estar firmemente estabelecido em um espaço 'feliz'" (segundo a tradução muito bonita de Gérard Blitz).

sthira: firme, sólido, durável
sukha: bem-estar (felicidade)
āsana: postura

"Āsana: être fermement établi dans un espace heureux" (selon la très belle traduction de Gérard Blitz).

sthira: ferme, solide, durable
sukha: bonheur
āsana: posture

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mora na filosofia

(....) Vou, então, responder ao teu problema, mas não sem que antes te aconselhe como deves moderar esse apetite ardente de que te vejo possuído, não vá ele, em vez de benefício, ser nocivo à tua formação. Repara que as questões não devem ser estudadas desordenadamente, nem convém tentar abarcar tudo de uma só vez; é gradualmente que chegarás à totalidade de nossas teorias. Importa também que não te esforces para além das tuas capacidades, nem tentes abarcar mais do que a tua preparação de momento te permite. Em suma, consagra-te ao estudo, não de tudo quanto te interessa mas sim de tudo quanto estás habilitado a entender. Se não desanimares, virás a conhecer tudo que desejas, pois quanto mais conhecimentos o espírito absorve tanto mais capacidade vai adquirindo.

Ainda guardo na memória um preceito que ouvi a Átalo nos tempos em que frequentava a sua escola (onde eu era sempre o primeiro a chegar e o último a sair); até mesmo durante os passeios do mestre eu o aliciava à discussão de um ou outro problema, aproveitando-me do facto de ele estar sempre pronto a ir ao encontro dos interesses dos seus discípulos. Dizia Átalo que "o docente e o discente se devem unir num propósito comum: o primeiro, ser útil ao discípulo, o segundo, tirar benefício do convívio com o mestre." [sic] De facto, quem convive diariamente com um filósofo obtém sempre algum benefício: ou o seu caráter se aperfeiçoa, ou se torna mais apto a aperfeiçoar-se. O poder da filosofia é tal que beneficia inevitavelmente não só os iniciados, mas até os que a conhecem ocasionalmente. Quem se põe ao sol, ainda que não seja essa a intenção, acaba por ficar bronzeado; a quem entra numa perfurmaria e lá se demora algum tempo comunica-se-lhe um pouco do cheiro característico do local; do mesmo modo, quem convive, mesmo distraidamente, com um filósofo aprende sempre qualquer coisa de útil. Repara que eu digo "convívio distraído", e não "hostilidade preconceituosa". [Negrito meu]

"Essa está boa! Se calhar não conhecemos casos de frequentadores, e por muitos anos, de escolas filosóficas que nem superficialmente sofreram a mínima influência!" [sic] Claro que conhecemos frequentadores obstinados e assíduos, até; mas a esses chamo eu "hóspedes" dos filósofos, não "discípulos". Há quem vá à escola apenas para ouvir, mas não para aprender, tal como se vai ao teatro pelo prazer de escutar um belo discurso, uma bela voz ou uma bonita peça! Uma grande parte dos frequentadores das escolas filosóficas vai lá apenas para passar o tempo. Não o faz para aprender a defender-se de algum vício, para interiorizar alguma lei moral que conduza ao aperfeiçoamento do caráter; vai lá apenas pelo prazer de ouvir. Várias pessoas levam consigo o bloco de apontamentos, para anotar, não pensamentos, mas frases que depois repetem sem proveito para ninguém, do mesmo modo que as ouviram sem proveito próprio. Algumas contudo, entusiasmam-se com as máximas sublimes, ficam mesmo inflamadas, de rosto e de espírito, de paixão pelos oradores, numa excitação semelhante ao efeito das flautas sobre os eunucos frígios, que ficam fora de si como se por ordem divina. A tais pessoas, o que as arrebata e excita é a beleza dos pensamentos, e não a harmonia de palavras ocas. Ao ouvir uma enérgica dissertação contra o medo da morte ou uma corajosa diatribe contra a fortuna sentem de imediato o desejo de pôr em prática o que ouviram.
(Lúcio Aneu) SÊNECA, o novo; Cartas a Lucílio, carta 108, tradução portuguesa de J. A. Segurado e Campos

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O desafio - ocidental - do lótus

Com a prática do zazen acabamos, de um modo ou de outro, tendo um conhecimento amador de biomecânica. Especialmente se você é uma pessoa com tendências a pensar obsessivamente, como eu. Ficar analisando os vetores durante o zazen não é zazen.

Com o tempo, também, torna-se evidente que a maior parte dos problemas "físicos" que temos durante o zazen é por causa da postura, da "má" postura. É evidente que a postura corporal e a "mente" estão de alguma forma relacionados, e podemos deduzir algo da cabeça de alguém, por exemplo, na sua postura do zazen.

Tem gente que diz que, dependendo do lado do corpo, pode estar relacionado com um aspecto da vida, profissional, amoroso. Agnosticamente não sei. Até mesmo a especialização hemisférica do cérebro está relacionada mais com aspectos cognitivos do que posturais. Há dados anedotais interessantes, porém, como a idéia - ainda não se se real - que quem se perde em um deserto, sem saber orientar-se, anda em círculos, pois um lado do corpo "puxa" mais que outro. No meu caso eu tenho certeza que seria assim, pois de saída tenho uma perna um pouco mais longa. Outro: vê-se que as pessoas em um quadro esquizofrênico cambaleiam mais para um dos lados, se não me engano o esquerdo.

Por "má" postura não queremos dizer que, necessariamente, a sua postura é ruim durante o cotidiano: pode ser, em muitos dos casos, mas não necessariamente. Cada caso é um caso, e cada um tem os seus problemas; uns originados pelo trabalho físico, outro por 8 horas por dia diante do computador, outro por problemas de saúde.

Imagine o que umas poucas horas na mesma postura, com o ombro direito levemente puxado para a frente, por causa da mão que segura o mouse, deve fazer. Assim, exatamente como estou agora.

Mesmo, porém, sendo você a Sophia Loren, pode não ter uma boa flexibilidade na parte mais importante para um boa postura no zazen: os quadris.

No final das contas, os quadris são o elemento crucial para a famosa e terrível e assombrosa postura do lótus (completo), a padmāsana do yoga, 結跏趺坐 (kekkafuza) nas palavras de Dōgen zenji; a postura mais estável possível. Como no zazen procuramos a postura ereta - ombros e orelhas na mesma linha, nariz e umbigo na mesma linha - pelo maior tempo possível, sabemos por experiência que a postura faz a diferença.

E, também, a postura do lótus é belíssima.

Sentar na postura do lótus não é puxar os pés para que fiquem engatados acima da coxa. Isso é o que a maioria das pessoas tenta fazer para mostrar o lótus, e dependendo da flexibilidade - no joelho, calcanhar - funciona melhor para uns, não muito para outros. Não é preciso dizer que somos idiotas se tentarmos forçar deste modo, o joelho é uma articulação rancorosa e não perdoa.

Está tudo nos quadris. Mulheres têm mais facilidade por ter um quadril diferente dos homens.

Mas isto não vale somente para a postura do lótus. Se valesse, eu não estaria dizendo nada dela aqui, pois pouquíssimos são os que a utilizam. Quase todas as posturas que utilizamos durante o zazen exigem uma abertura dos quadris, e a boa postura depende disto, de uma boa base. Se não houver esta boa base - se há algum desnível, um lado que escorrega mais, uma perna mais tensa - toda a postura sente.

Yōkō proporciona, todos os dias de prática de zazen, umas duas horas antes (17:30), algumas posturas de yoga para melhorar a postura do zazen. Todos estão convidados a fazer uma visita.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Chega

"Se você soubesse, de antemão, o quanto a prática ['espiritual', do zen] poderia ser difícil, sequer teria começado." Se não me engano, Albert Low falou algo deste calibre, no seu A vaca de ferro do zen.

O mesmo pode ser dito da vida. Se soubéssemos o quanto ela poderia ser difícil - cotidianamente, paulatinamente, excepcionalmente -, o quanto ela não cessa de nos mandar as benesses e as mazelas cotidianas, sem interrupção, acho que um bom número de nós escolheria, em algum momento, nem sequer ter aparecido - pensamento este evidentemente absurdo.

Tente imaginar que você jamais existiu. Não, não assim, não é pensar em você, seja o que for, olhando para o mundo sem a existência ______ (coloque o seu nome aqui); é pensar que você - que está pensando agora - sequer tenha experienciado um momento de consciência de si, e o mundo continuou. É praticamente inconcebível: podemos pensar a nossa não-existência - de modo até calmo e desapegado - somente se vemos com o nosso ponto-de-vista.

Não dá pra dizer "chega, pode parar" para a vida, por mais "vivido" que você pense estar. É tirar ou pôr. A vida é uma questão de vida ou morte, e não pensa em termos de excessos ou deficiências, de mais ou menos - "chega", "ainda não", "estou cheio/estou vazio".

Que pena. Queria uma banheira de água quente infinda, que não murchasse os dedos nem ardesse os olhos, com uma taça de vinho que não acabasse nunca e sempre mudasse a uva, a idade e o vinhedo, com direito a replay dos melhores momentos, sem ressaca. Ah, como eu queria.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Uma história de meditação bem-sucedida


Dolce far Niente, John William Waterhouse

Existe uma coisa chamada "análise do discurso", uma ou várias técnicas, com vários referenciais teóricos, para, por exemplo, analisar representações sociais em pedaços de discurso - textos, vídeos, músicas. Há trabalhos interessantíssimos, e aponto para o LACCOS, aqui na UFSC. Há, também, trabalhos risíveis, daqueles que se pergunta se foi realmente necessário uma pessoa chegar até um mestrado, ou doutorado, para escrever algo que, usualmente, as pessoas fazem - ou tentam fazer - lá na redação do vestibular, ou numa mesa de bar, ou em um blogue.

Uma destas análises risíveis segue-se abaixo.

Faz mais de duas semanas em que o seguinte blogue está assombrando a minha caixa de mensagens do gmail, lá em cima, onde o onipresente google coloca os seus pequenos anúncios. É um blogue de um cara de meia-idade, que poderia ser chamado, aqui no Brasil, de Ricardo da Silva.

Primeiro ponto: como ele mesmo diz, é um cara "normal", que descobriu uma técnica de meditação legal ("cool"), e que quer dividi-la com o mundo. Que maravilha! Não é mais necessário ter de apresentar mulheres bonitas sentadas em poses "de meditação" estapafúrdias, em lugares bucólicos ou em flats com cortinas de algodão fino sendo balançadas pelo vento. Afinal de contas, mulheres "bonitas" não existem em todos os lugares, nem todas as mulheres são "bonitas" e magras e flexíveis. Agora podemos virar a mesa e simplesmente ser uma pessoa "normal", com seus problemas de meia-idade ou demais. Afinal de contas, a maioria de nós é feita de pessoas "normais".

O blogue apresenta apenas um único texto, onde o Cado - vamos chamá-lo assim - conta a sua história com métodos de meditação, e o seu crescente desapontamento com eles. Lá em 2007 ele estava muito estressado e praticamente a ponto de ter um colapso nervoso; um dos médicos indicou a meditação e relaxamento como uma forma de lidar com o estresse. Cado foi atrás de vários métodos meditativos "estranhos e maravilhosos" que prometiam fazer maravilhas ("weird and wonderful meditation systems that promissed the earth"), e gastou por volta de 3000 dólares nisto. Alguns métodos exigiam 3 a 6 horas de prática por dia, e ele não podia, evidentemente, pois tinha que trabalhar e ganhar seu sustento.

Segundo ponto: Cado é uma pessoa normal que ficou em um estado de estresse agudo, como muitos. Todos sabemos que o estresse é, praticamente, uma das síndromes atuais. E Cado, evidentemente, faz o que é esperado: vai atrás de um médico, que além de lhe receitar alguma coisa (que Cado não quer tomar, pois não gosta de ter de tomar remédios), orienta para uma prática de "meditação"; Cado gasta uma graninha com métodos que prometiam o que ele queria, mas não cumpriam, ou exigiam demais. É um discurso parecido com o das pessoas que faziam parte de seitas ou de algumas igrejas atuais, e saíram ("dei todo meu dinheiro para Jesus e não ganhei nada"). Este é um dos pontos nodais do argumento dele, para o qual ele volta, mais tarde: "não gastem o dinheiro que eu gastei, façam como eu, vão direto para o que funciona".

Felizmente, então, Cado se defronta com uma técnica "baseada cientificamente", do qual ele falará mais adiante, que oferece os benefícios de uma prática de meditação profunda, mas mais rapidamente e com um custo menor, o Brainwave Entrainment, que, além de tudo, é validado cientificamente.

Terceiro ponto: "sempre me sinto mais confortável quando cientistas validam algo", diz Cado. É o que chama a sua atenção e o que demole um pouco do seu ceticismo frente a um método que é rápido e barato. Os cientistas e a ciência dão o ok e asseguram um status; este é um poder que grande parte das pessoas mais ou menos instruídas - eu incluso - dão aos mesmos, e que não se baseia em raciocínio ou intelecto ou discussão, mas somente em confiança de que alguém já fez o trabalho intelectual pela gente.

Cado segue contando um pouco de como chegou a conhecer este método novo de meditação, do seu ceticismo inicial até o momento em que ele, recebendo pelo e-mail, sem o pedir (spam anyone?) uma amostra grátis deste método, dá uma chance, mais pelo fato de que o "cara" que enviou esta amostra, um tal de Michael Mackenzie, foi quem deu - por e-mail - umas das dicas mais "honestas, gentis e gratuitas" sobre meditação.

Quarto ponto: carisma. Cado simplesmente confiou no Michael ("I guess I just trusted him at a gut level"). Apesar do aval científico, Cado não teria dado uma chance se este cara não tivesse surgido.

Então ele tenta, e coisas maravilhosas acontecem; seu estresse simplesmente evapora, depois de sete minutos, e ele descobre algo que realmente funciona. Pequeno parágrafo de explicação científica, e outros descrevendo os benefícios. Cado sugere que pessoas que praticam meditação durante anos a fio podem nunca experimentar estados tão bem-aventurados, e se sente em uma desvantagem desleal com todas estas pessoas que "gastam várias horas, por dia, sentadas disciplinadamente em posição de lótus".

Quinto ponto: Cado coloca, de um lado, a prática "árdua" de meditação, como usualmente a conhecemos - disciplina, horas e horas, dinheiro gasto - e faz o contraste com esta técnica, recém-descoberta, que exige pouco tempo, não custa tanto, e, por incrível que possa parecer, funciona. Do ceticismo ao convencimento, em poucos minutos; Cado é convencido que realmente funciona. Como Cado percebe que a prática árdua de meditação talvez não pareça proporcionar estes efeitos...

As pessoas perguntam qual o segredo de tal mudança, ele fala de tal método, e se sente feliz em poder ajudar as pessoas; é o melhor presente que ele pode dar ao mundo.

Sexto ponto: ...ele se sente feliz em poder ajudar os outros com a sua descoberta de algo mais simples e rápido. Cado não somente encontra algo que resolve o seu problema, mas também quer que os outros se beneficiem dele.

Nos últimos parágrafos, ele simplesmente resume alguns dos pontos levantados acima: "se você quer experimentar os vários benefícios extraordinários da meditação, sem todo o trabalho duro e os anos de dedicação, Brainwave Entrainment é uma excelente maneira de fazer isto. Eu te digo: a meditação Lifeflow lhe trará resultados mais rápido do que qualquer outra coisa que eu possa ter experimentado. Desde que eu comecei, descobri que esta técnica é a tecnologia mais avançada disponível agora. Se você der uma olhada, você vai descobrir os mesmos fatos.

Eu adoro ajudar as pessoas a derrotar o estresse e a sentir maior paz interior e felicidade. [....] nem toda meditação é trabalho duro e requer a paciência de um santo."

Ou: meditação rápida, barata, que tem bases científicas, e funciona - faz com que você tenha mais calma, segurança, paz e felicidade, sem ter que esperar muito, ou pagar muito, ou os dois, por isto. Meditação para pessoas normais, que não podem gastar o seu tempo e o seu dinheiro atrás de práticas difíceis - já que as outras práticas meditativas sempre exigem um tempo, dinheiro e uma dedicação que você não tem, preocupado em simplesmente ser um cara normal, que tem de alimentar a família.

Ou: meditação rápida e barata que te dá exatamente aquilo que você quer dela.

Isto é apenas o começo. A página do Brainwave Entrainment ou Lifeflow® é uma mina de ouro, em vários sentidos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A falta que um tenzo me faz...

Não, não estou falando de amores com um tenzo ou uma tenza, cortando cenouras à luz do luar. Conversava, isto sim, com um amigo, que me dizia do nosso próximo apascentamento da mente, sesshin, no meio de outubro, na já conhecida sede dos Baha'i. Sesshin neste lugar implica, automaticamente, em duas coisas: aranhas perigosíssimas nos quartos (aquelas marronzinhas), e comida feita por nós.

Este é algo que eu sempre sinto falta, quando ele não está presente. Em alguns lugares nos quais fizemos sesshin a comida era feita pelo pessoal da casa, e a cozinha ficava com eles também. Ajudávamos a arrumar as coisas, e nossos detalhezinhos ficavam por nossa conta, mas a maior parte do trabalho - preparação, cardápio, sobras, ingredientes, arrumação - eram eles quem faziam. E faziam bem: a comida sempre foi muito boa, nada do que reclamar, a não ser um arroz mal-cozido quando em vez.

Mas... não sei, pode ser besteira minha; a cozinha, porém, é vital. Um sesshin que também implica a cozinha - e tenzo, jonin, etc - fica mais redondinho. Por uma razão muito simples: a relação outros e nós mesmos.

Nós não vamos a um sesshin apenas para sentar em zazen, e por lá ficar. O sesshin é um momento de concentração, de reunião, da mente/coração. Isto implica um momento em que nos damos ao luxo de poder somente fazer zazen, claro, mas também implica outra coisa: trazer todas as nossas atividades para dentro desta reunião, e trazer todas as pessoas para dentro desta reunião. O fulano que não está fazendo zazen pois está lá embaixo, cortando cenouras, está praticando conosco. Ele teve de se levantar, enquanto os outros continuavam o seu zazen, para cortar cenouras - e cortar cenouras "como se fossem os seus próprios olhos", como dizia Dōgen, a respeito do cuidado a ter com os instrumentos e ingredientes.

E, é claro, tal fulano pode adorar isto e rezar para ser chamado para ser jonin. Isto não tem importância, há momentos de ser jonin, há momentos de reza, há momentos de zazen.

Não se trata da comida. Algumas comidas, evidentemente, são melhores para passar horas sentado-no-mesmo-lugar que outras. Sobremesas superdoces são terríveis para gente magra como eu. O pessoal no Busshinji comia uma quantidade que me faz passar mal mais de uma vez, quando eu fui jonin e não podia escolher o tamanho da minha porção. Os cinco sabores e cores devem estar presentes, e tudo e tal, mas comemos papa de aveia, se preciso. Água quente, se preciso. Sucrilhos com casca de ovo. Feijão com garapa. Risoto de jabuticaba.

Não é a toa que o trabalho da cozinha exige que o tenzo seja um dos seis cargos mais "importantes" de um mosteiro, e seja dado a um praticamente mais comprometido, ou um mestre, quando o há. Simplesmente não me soa "bom" ver a cozinha como apenas um lugar para cozinhar as coisas, para dar comida aos praticantes que estão no honorável zazen. A segunda parte é hábil, e deve ser a mente de um tenzo ("afinal, não é maravilhoso poder dedicar o que cozinhamos a verdadeiros praticantes do caminho?" - "é como se estívessemos oferecendo comida a todos o budas, patriarcas e seres"); mas a primeira não me parece. É colocar o zazen como um "fim" que deve ser atendido por um "meio" - cozinha, banheiros, almofadas, camas; uma distinção desnecessária.

Cozinhar nós mesmos nossa própria comida nos ajuda a lembrar disto. E, quando outrem o faz, nós comemos agradecidamente, (tentando compreender) compreendendo o vazio das Três Rodas: quem dá, quem recebe e a própria oferenda.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Deixe eu e o mundo sermos como somos.
Não há coisas, nem há vazio.
Se há coisas, não são para mim.
Se não há nada, eu não o quero.
Não sou Manjushri ou algum "sabichão".
Sou um homem comum que faz o que tem que fazer.
Quão simples é a verdade!
Nos sentidos, pensamentos e sensações jaz verdadeira sabedoria.
Tudo é Um com a Unicidade.
Aquele que alcança não é dois.
Se queres ficar livre do sofrimento e viver no saber,
Eu não posso te dizer onde fica a terra de Buda.

P'ang Yun (龐蘊), o Leigo (740-808 dC)
em Pensando zen: a vaca de ferro do zen, de Albert Low, ed. Bodigaya.

terça-feira, 1 de setembro de 2009


Do alto deste Everest, um pequeno buda vos contempla.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Feito à mão

Oficialmente, Florianópolis entra na estatística de furtos de rakusu. Ao que me consta, já foram dois - contando o furto do meu, esta noite - no espaço de um ano. Como estatística de dois já é, por definição, estatística - embora uma péssima -, ei-la.

Até que não foi tão difícil explicar, durante o relato do BO, o que era um rakusu, como calhou de ser com o nosso colega Seidō. O policial de plantão foi, no finalzinho do nosso chitchat, chamado para um caso de sequestro de uma criança. Simplesmente, então, escreveu o que ditei: "uma miniatura de um manto Budista da cor preta com escrita em Japonês".

Até quis adicionar "parecido com um babador", mas isto não é linguagem que se utilize em um BO... ou é?

E que venham os retalhos!

sábado, 22 de agosto de 2009

Para mim, e a quem servir o chapéu

Você vive a reclamar e a praguejar
contra o inúmero número de thousand
natural shocks that flesh is heir to;
o nariz que escorreu ontem de noite, o
olho que lacrimeja frente ao vento do
inverno, as dores inescrutáveis, e o
rangido do maquinário. Mas e quando tudo
está azeitado, nenhuma palavra atenta a
agradecer; no máximo um suspiro de alívio
por você. Seu idiota. O resfriado de
ontem, o vigor de hoje; todos viajantes.
Gostaria de, no final das contas, nada
ter a escarnecer ou agradecer; então
dias tranquilos de resfriado virão.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Fukanzazengi

Abaixo, algumas primeiras linhas do texto do Fukanzazengi (普勧坐禅儀) de Dōgen Zenji, interpolado.

Na primeira linha temos o texto “original” (原文), que não sei de qual das versões é (shinpitsu- ou rufu-bon, provavelmente a última) encontrado aqui.

Na segunda linha está a frase acima em japonês moderno, encontrado também aqui e em um folheto da CZBF; os parênteses são a leitura em hiragana dos ideogramas anteriores, uma alternativa ao furigana.

Abaixo a romanização (da segunda linha), tirado do mesmo folheto. Os colchetes indicam divergências: os [] indicam texto do folheto que difere (da outra fonte) do caractere imediatamente precendente, e os {} apresentam texto da página online que difere do folheto da mesma forma.

A quarta linha é a tradução do pessoal de Antai-ji, e a quinta linha é a tradução em português do pessoal do Busshin-ji. Várias outras traduções estão disponíveis.

原夫道本圓通、爭假修證。
原(たず)ぬるに[、]夫(そ)れ道本円通(どうもとえんづ[ず]う)、争(いか)でか修証(しゅしょう)を仮(か)らん。
tazunuru ni sore dō moto en zū, ika de ka shushō o karan.
The Way is originally perfect and all-pervading. What need is there for practice and realization?
Quando se busca a fonte do caminho, percebe-se que ele é absoluto e tudo permeia. É desnecessário distinguir entre “prática” e “iluminação”.

宗乘自在、何費功夫。
宗乗(しゅうじょう)自在[、]何ぞ功夫(くふう)を費(ついや)さん。
shū jō ji zai nan zo ku fū o tsuiya san.
The Dharma vehicle is rolling freely. Why should we exhaust our effort?
O ensinamento supremo é livre, então por que estudar os meios para alcançá-lo?

況乎全體逈出塵埃兮、孰信拂拭之手段。
況んや全体逈(はる)かに塵埃(じんない)を出(い)づ[ず]、孰(たれ)か払拭(ほっしき)の手段を信ぜん。
iwan ya zan tai haru ka ni jin nai o izu, tare ka hosshiki no shu dan o shin zen.
There is no speck of dust in the whole universe. How could we ever try to brush it clean?
O caminho é, desnecessário dizer, muito diferente da delusão. Por quê, então, preocupar-se com os meios de eliminá-la?

大都不離當處兮、豈用修行之脚頭者乎。
大都(おおよそ)当処(とうじょ)を離れず、豈{に}修行の脚頭(きゃくとう)を用ふる者[もの]ならんや。
ō yoso, to jō o hanarezu, a ni shu gyō no kyakutō o mochi uru mono naran ya.
Everything is manifest at this very place. Where are we supposed to direct the feet of our practice?
O caminho está completamente presente onde você está, então para que servem a prática e a iluminação?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Flávio Jōshin


Flávio era meu amigo.

Ele me ensinou a sentar como uma montanha. Ele me ensinou que há perguntas prementes a serem respondidas.

Ele me ensinou a praticar.

(....)

Lembro-me dele, recentemente; em zazen, escutava o jogo dos sinos na rua. Ele pisa na soleira do zendo e declara, com voz forte: "praticantes, vida e morte são assuntos importantes". Lembro-me de quando comecei a praticar - tão pouco tempo! - e de como ele me impressionou como praticante. Eu tinha sempre uma carona certeira com ele, e estes dias, voltando de um sesshin, ele brincava: "eu sou uma mãe para você" - referindo-se aos inúmeros quilômetros rodados. Depois, explicava-se: é assim que nós fazemos, você precisa agora, um dia você dará carona para outros.

Com certeza, Flávio, com certeza. Flávio era meu amigo e ele me ensinou muita coisa.

(mensagem mandada por mim para a lista ZenSul em 30 de agosto de 2008, logo depois de saber da morte do Flávio)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Anotações

Então, Al Gore faz gasshō em uma TED Talk. As TED Talks são uma das melhores coisas que se pode ver no youtube.com; as pessoas mais interessantes já fizeram os seus poucos minutos por lá, algumas mais de uma vez.

No meu mundinho, ser convidado para participar de uma deve ser bem divertido. Eu ia dizer "uma grande honra", mas deve ser mais divertido que honrável.

É claro que Isabel Allende, a prometida de Pablito, deu as caras por lá e nos conta por que ainda fala de feminismo, e se diz feminista. Tales of passion; não se arrepiem, Budistas Empedernidos, um pouco de paixão nada tem de mais, especialmente com uma broa de fubá quentinha.

Ela nos conta do momento em que carregou a bandeira nas olimpíadas de inverno de 2007, juntamente com outras notáveis mulheres, como Sophia Loren que, altiva, imitava a Liberdade conduzindo os homens - e Isabel Allende entre as suas pernas nas fotografias.

Perguntada sobre o segredo de ser bonita e uma velha senhora - rá -, Sophia responde: postura. E não fazer barulhos de gente velha.

Sophia, aguardamos você hoje, quarta-feira, às 19:30 horas, na CZBF.

*****

Encontrei ontem, ao limpar meus papéis, algo que achei, tristemente, que tinha perdido: as minhas anotações curtas da palestra que o sensei/roshi (dúvida que seu çaite não dirime) Shohaku Okumura deu, no rohatsu sesshin de 2008 no Busshin-ji, em São Paulo.

As palestras foram sobre os 16 preceitos, ou mais exatamente sobre os 3+3+10 preceitos no zen. Tomando quatro textos como referência - um sutra sobre as quatro "ofensas" parajika, o sutra da rede de Brahma, os comentários de Bodhidharma sobre os preceitos e o Ryaku Fusatsu de Dōgen - Okumura roshi falou sobre os preceitos e sobre a sua evolução, se assim podemos dizer, através dos vários autores.

A minha anotação, refiro-me a ela no singular, pois na verdade ela é uma anotação sobre um preceito específico com o qual, exatamente, eu tenho as minhas conversas e divergências.

Claro que se trata da "regra de treinamento de abster-me de comercializar e consumir bebidas alcoólicas/intoxicantes", como está no texto original em páli.

Bem, comercializar... tudo bem, mas abster-se?

Todos sabemos, porém, que o preceito expandiu-se e diz atualmente o seguinte: tomo o voto de abster-me de substâncias que alterem a consciência. Eu vou pular toda a discussão sobre o que seria uma droga ou não, o que seria vício ou não, pois no meu mundinho particular estamos também envolvidos em um mar de "drogas" e "vícios", pois em muitos casos, realmente, o valor está nos olhos do "vedor". Sabe aquele potinho de nescau que você tem no seu armário? Então. Aquelas partidinhas básicas de paciência spider para desanuviar? Ih.

O Adversário vos espreita de todos os lados, dê o nome que quiser - Satã, Mara, ______ (insira seu nome aqui - não, não o seu nome, o nome que você quiser dar!)

Mas, somente para pensar, pensemos na famosa ambiguidade das palavras pharmakon e droga.

Enfim, o que vou me abster por hoje é de entrar em um clima confissional. Estou me sentindo muito pouco augustiniano hoje, e não vou contar quantas pêras eu roubei do vizinho - no meu caso, goiabas, e não do vizinho.

A questão é que todas - a maioria, pelo menos - das regras monásticas (do vinaya) têm uma historieta por trás: a maioria das vezes é algum bhikku que faz algo não muito proveitoso e uma regrinha surge para evitar tais atos no futuro. Evidentemente todas elas têm um sentido muito pragmático, mensurada pelas consequências do ato, especialmente naquele contexto. Prestes a morrer, o Buda dá como conselho a Ananda que as regras "menores" de até então podem ser abolidas - e como Ananda não perguntou quais eram, todo mundo decidiu abolir nenhuma.

Mas, ao falar dos "preceitos", não estamos falando das regras do vinaya. Todas as regras do vinaya têm como corolário o fato de serem "regras de treinamento", i.e. regras de conduta para quando uma pessoa estiver "em treinamento" monástico. Os preceitos aqui falados são os preceitos que são "tomados" por qualquer um que pratique o budismo, monge ou leigo. Especificamente, referem-se aos preceitos tomados na "ordenação leiga" (jukai) no zen.

Sabendo, por experiência(s) própria(s), que o consumo de "substâncias que alteram a consciência" podem ter, como consequência, um descuidado, uma falta de atenção, desconsideração e agir de forma que nos arrependamos mais tarde (o que a partir deste momento eu chamarei apenas de heedlessness), é bom-senso que observemos este processo e evitemos de entrar nele despreparadamente e descuidadamente.

Quer dizer: pode ser possível embebedar-se - e demais quetais - sem cair em heedlessness?

Quando criança eu tinha dores de barriga e problemas intestinais por comer goiabas verdes - as "verdurangas", como eu as chamava. Adorava. Adorava comer trevinhos e azedinhas, também. Comia um monte de verdurangas e depois não conseguia comer mais nada, e passava mal. Mas nunca prometi que ia parar de comer verdurangas, e apesar das reclamações de criança, nunca fiz algo do qual me arrependesse, por causa delas. Talvez tenha incomodado algumas pessoas - mãe, pai, etc. - mas nunca propositadamente. As goiabas eram verdurangas, e isto é tudo.

A resposta para a questão anterior é "parece que sim". O caso clássico, para o Ocidente, é o de Sócrates, que dizia-se que nunca se embebedava, por mais que bebesse. O Banquete termina com todos os convivas - que beberam de menos, por estarem todos de ressaca pela bebemoração da vitória de Agatão na noite anterior - sonolentos e dormindo, o sol quase raiando, enquanto Sócrates ainda conversa com os poucos acordados e sóbrios o suficiente. Depois, tendo amanhecido e todos dormido, ele vai para o Liceu se lavar e parte direto para um novo dia normal.

Mas a questão que coloquei não procura por uma suposta resistência ao álcool. Isto não é "privilégio" de muitos, e enfim, vivemos na era das designer drugs: daqui a pouco surgirá o álcool que embebeda menos e não provoca enjôos, o café que provoca menos arritmias e frio nas mãos, a maconha que não provoca lapsos de memória. Quem já viu as pessoas que não sentem dor (fisiologicamente, e não casos de anestesia "psíquica") sabem que não sentir dor não é nenhum privilégio, tampouco. [aqui, aqui, aqui, aqui e aqui]

A questão da heedlessness, portanto, tem a ver sim com as "substâncias", mas não é por causa delas que a anterior necessariamente acontece: digamos que beber/comer/ver/ingerir é causa eficiente, mas não causa final, da heedlessness.

No belo videozinho abaixo, por exemplo, o filho age de forma descuidada e rude com o pai. Donde surgiu aquele tom de voz, aquela impaciência, aqueles movimentos corporais? E de onde surgiu aquele tom de voz, aquela paciência, aqueles movimentos corporais por parte do pai?

"Cuidado", aqui, pode dar a impressão de ser uma coisa estudada, extremamente racional e ponderada, mas não precisa ser. Os movimentos podem ser estudados - i.e. atentos, ponderados - como os movimentos das mãos que falei anteriormente, mas depois de um tempo eles podem se tornar naturais sem, contudo, serem descuidados. Então não pensemos que a "atenção" é somente em termos cognitivos. O próprio zazen, com o passar do tempo e com prática, torna-se mais natural sem descuidar-se.

Há. assim, historietas de mestres do zen que, depois de uma vida ensinando, vão "viver a vida adoidado"; outros que gostam de uma biritinha nas noites frias de inverno. Não são todos e são poucos, evidentemente. Maezumi roshi morreu afogado em uma banheira, depois de uma suposta bebedeira com os irmãos. Quer dizer, "ser zen" não impede você de não vomitar - e, se impedir, uma grande perda para a indústria farmacêutica - mas pelo menos pode ajudar a não fazer bafão.

O interessante é que "álcool" é aqui utilizado como paradigma de substância que altera a consciência, e por bons motivos. Um deles histórico: o álcool está por aí, em uso praticamente geral, por muito, muito mais tempo que qualquer outra coisa que tenhamos hoje em dia, inclusive tabaco e café. Estes dois últimos são muito recentes no Ocidente, praticamente desconhecidos na Índia do século V aC, um pouco mais conhecidos na China dos primeiros séculos aD e Japão de Dôgen.

Outro motivo, decorrente do primeiro, é que por ser mais conhecido, todo mundo já conhece o que acontece com as pessoas quando elas bebem, especialmente porque a maioria das pessoas já bebeu ou bebe. Isto talvez não fosse verdade antigamente, mas o é hoje em dia. "Alcoolismo" é visivelmente um problema seriíssimo, não precisando ser abstraído para ser visto; está ali do lado. Viver em um país no qual um litro de cachaça custa o mesmo que um pacote de pão de trigo o pode mostrar.

Assim, o sutra da rede de Brahma diz: "um discípulo de Buda não deve comercializar bebidas alcoólicas, ou encorajar outros a fazer o mesmo. Ele não deve criar as causas, condições, métodos ou karma de vender qualquer intoxicante, pois estes são causas e condições de todos os tipos de ofensas. Como um discípulo do Buda, ele deve ajudar todos os seres sencientes a alcançar uma clara sabedoria. Se, em vez disso, ele faz com que eles tenham pensamentos distorcidos e confusos (upside-down, topsy-turvy thinking), ele comete uma ofensa Parajika."

É continuação direta, portanto, do preceito original das primeiras comunidades budistas. A questão já aparece, porém, de que o preceito está relacionado com a dupla sabedoria/ignorância: intoxicantes podem criar as causas e condições para ações insalubres, akusala. Há, aqui, um interjogo do que, em páli, é chamado de kilesa, “mancha, veneno, poluição, sujeira, intoxicação", algo que mancha e suja a mente.

O comentário de Bodhidharma sobre o preceito diz: "a natureza-una (自性, natureza fundamental) é sutil e maravilhosa, e dentro do dharma [cuja natureza] é intrinsicamente/originalmente pura, não ser cegado pela ignorância (無明, avidyā) é chamado de 'preceito de não tomar bebidas intoxicantes'".

Não é interessante? O dharma é originalmente puro. O preceito de "não tomar bebidas intoxicantes" é para não ser cegado pela ignorância. Esta ignorância, é ignorância em relação a quê? Deixo a resposta em aberto para todos nós.

A minha anotação, que se resume a apenas uma folha de caderno, relaciona-se ao comentário de Dōgen sobre o mesmo preceito. Pedi para que uma senhora ao meu lado anotasse os kanji que Dōgen usa, e sobre os quais Okumura sensei roshi falava. No texto, em português, do Ryaku Fusatsu que foi-nos distribuído, está: "Quinto. (a Ilusão) Não tomar das bebidas inebriantes. Não agarrar e nem violar, esta é a grande luminosidade da sabedoria".

Os ideogramas estão próximos desta tradução, e são

未将来(又)
mi shō rai (mo)
“não trazidos para dentro (também, ainda)”

莫教侵
maku kyo shin
“não deixe com que invadam”

Para Okumura, tal comentário de Dōgen está relacionado com uma história que envolve Huineng e Tozan. Infelizmente não pude encontrar esta história e as minhas anotações não deixam claro quem disse o quê e onde. É uma história em que um dos dois responde 96 “nãos” para a pergunta de um praticante. “96 nãos” de Tozan? De Huineng? Não sei. Entre aspas, porém, anotei a fala de um dos dois: “mesmo se ela fosse trazida para dentro, eu não teria lugar para colocá-la”.

Contentemo-nos com isto, por ora.

"O que foi isto?"

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Olha as mãos!

gasshō (合掌, gatsu+shō, isto não tem mais fim!) é, literalmente, o "mãos em prece" da sensei Coen; mãos colocadas unidas palma com palma na altura do peito, a postura de reza que gostamos ou não, dependendo da nossa experiência prévia com ela.

Pra metade do mundo esta postura de mãos - mudrā - é conhecido como añjali mudrā, o mudra de "respeito ou veneração", também podendo servir como símbolo da união não-dual, do tatha, ("suchness") e demais quetais. Também pode servir como simples cumprimento, o famoso namastê - que tem aquela tradução enorme e açucarada a la Weiss como "o D'us que habita em mim reconhece o D'us que habita em você, e vice-versa e ambos".

Ao lado, temos Al Gore em gasshō/añjali/namastê, seja por respeito, veneração, boa educação, inteligência, motivos escusos ou todas as anteriores.

Para o pessoal do yoga, o añjali mudrā pode ser utilizado em vários asanas e há a famosa surya namaskar(a), a Saudação ao Sol, que é uma excelente maneira de começar o dia e que aprendi, muitos anos atrás, em uma cobertura no Leblon, nas férias mais novela-das-oito que tive em minha vida - depois de ter encontrado uma Garoupa de 100 reais, vinda para lavar os meus pés como filha de Iemanjá, nas águas de Ipanema. Divago, mas é a pura verdade.

No budismo, aliás, há diversos mudras que podem ser conferidos nas estátuas e nas representações do Buda. Vários são usados na prática cotidiana do budismo em vários lugares, dentre eles o já mencionado mudra de veneração e o mudra de meditação (dhyāna mudrā), que faz parte do kit zazen.

Há uma importância a ser aprendida naquilo que fazemos com as nossas mãos, e como o fazemos. Na prática do zen, por exemplo, é indicado que se empregue as duas mãos, se possível - ao pegar alguma coisa, por exemplo. As mangas da roupa de um monge zen são compridas, para forçar que se preste atenção ao movimentá-las.

No aikidō, o mesmo princípio: mantenha as mãos na frente do corpo, e siga-as com os olhos.

Há a célebre imagem dos homúnculos do córtex, os dois homenzinhos distorcidos que mostram, figurativamente, a representação das partes do corpos nos córtex sensorial e motor. Mãos e lábios saem ganhando, de disparada, nos dois.

É fácil perceber a importância das mãos na nossa vida; um pouco menos fácil é pensar que, de certo modo, somos mãos ambulantes, e que as nossas mãos, além de terem tido um papel especial na evolução humana, têm uma relação deveras especial com o cérebro. E têm.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um Buda sozinho não faz verão

Uma notinha de rodapé ao Dhammacakkappavattana suttaṃ (DCPS) por Peter Harvey é bem interessante.

O DCPS é o "sutra do colocar a roda do dharma em movimento", o dito primeiro discurso do Buda aos seus cinco colegas ascetas. A roda, cakka em páli e chakra em sânscrito, é indubitavelmente um dos símbolos budistas mais famosos, presente em bandeiras e pinturas e bricabraques e frufruzices afora; tem até o seu símbolo especial na tabela Unicode - ☸. Em alguns é uma roda, outras tantas vezes parece um leme, e maior parte das vezes possui oito eixos, que dizem simbolizar o "nobre caminho de oito partes" (ariyo aṭṭhaṅgiko maggo).

[E deixa eu repetir mais um vez a palavra chakra para as pessoas que estão atrás de ida e pingala e demais toparem com o meu çaite sem querer. Meus queridos, sinto muito, cá não estão, mas...]

Voltando ao Harvey, em sua tradução presente no sempre necessário e nunca esgotado Access to Insight, é que pode haver um "trocadilho", no texto em páli, entre cakka e cakkhu. cakkhu é olho/visão, e dhammacakkhu é "olho/visão do dharma". Abaixo, um trecho do sutra:
E enquanto a explicação acima [que o recém-Buda deu sobre as quatro nobres verdades, ou 'quatro realidades para os nobres', como traduz Harvey] era dada, surgiu no venerável Koṇḍañña a visão-do-dharma imaculada e 'sem manchas': 'tudo que está sujeito a surgir está sujeito a cessar' ("yaṃ kiñci..."). E quando a roda-do-dharma foi colocada em movimento pelo Abençoado, os devas-que-moram-na-terra exclamaram...

Imasamiñca pana veyyākaraṇasmiṃ bhaññamāne āyasmato koṇḍaññassa virajaṃ vītamalaṃ dhammacakkhuṃ udapādi: "yaṃ kiñci samudayadhammaṃ sabbantaṃ nirodhadhammanti". Pavattite ca pana bhagavatā dhammacakke bhummā devā saddamanussāvesu: ...
E depois de um brilho glorioso que nada deixa a dever para a queima de fogos em Copacabana, e um abalo sísmico no triquiliocosmo - sem casualidades -, o Abençoado fala: "o honrado Koṇḍañña então compreendeu! o honrado Koṇḍañña então compreendeu!" E então o venerável Koṇḍañña recebe o nome de Aññākoṇḍañña, "Koṇḍañña-que-compreendeu", e assim termina o sutra.

O forte sentimento que tenho ao ler esta exclamação final do Abençoado é de que ele ficou feliz e surpreso, não parece? Exagero, claro, para fins retóricos, mas depois de ter sido praticamente forçado por Brahma a expor o dharma para os outros homens, não é totalmente estranha a idéia de que Buda estava no mínimo um pouco cético: "esses aí, sei não". E então Koṇḍañña compreende, o olho-do-dharma se abre; "entendessi? tu diz! pior que entendessi, ô istepô!!".

O trocadilho entre cakka e cakkhu que Harvey aponta, porém, vai além das minhas brincadeiras manezinhas: parece que foi preciso que o olho-do-dharma se abrisse em Koṇḍañña - que ele "entendesse" - para que a roda-do-dharma girasse. Não é Buda quem gira a roda.

Em outras palavras, um Buda sozinho não faz verão.