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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Verso da madeira

Resultado de imagem para moppan zen
Uma tradução minha para (uma das versões d)o verso da madeira (han/moppan), batida ao final do último período de zazen do dia:

生死事大
無常迅速
各宜醒覺
愼勿放逸

Nascer e morrer, grandes questões;
Nossa vida passa rápido, e se esvai.
Cuidado: o tempo não te espera.
Não perca o momento - desperta!

É dito que, quando o buraco na madeira fica tão fundo e não tem mais onde bater, o pessoal ganha um dia de folga.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Quatro votos do bodhisattva

眾生無邊誓願度
煩惱無盡誓願斷
法門無量誓願學
佛道無上誓願成

Seres sem limites prometo levar à outra margem;
aflições intermináveis prometo extinguir;
portais-do-dharma, imensuráveis, prometo estudar;
o Caminho do Buddha, inigualável, prometo realizar.

Notinhas
度 - "levar à outra margem", da margem do samsara para a margem do nirvana. Traduz-se também como paramita.
煩惱 - muitos significados. Ver aqui (inglês, login guest, sem senha).
學 - "estudar" envolve algo além do sentido acadêmico; trata-se de aprender e apreender, com corpo e mente, assim como aprendemos a andar.
法門 - termo clássico usado para os vários ensinamentos buddhistas.

Uma tradução livre dos "quatro votos". Atentem que todos os votos são "paradoxais" em sua formulação: como é possível extinguir o que nunca termina? Aqui, eles são como Aquiles e a tartaruga: uma corrida ao limite, nunca alcançado. Isto é desanimador para você? Mas porque seria? Se você, ao nascer, pensasse antecipadamente na quantidade de ar-dentro-ar-fora que tem de fazer (aprox. 250 milhões em 80 anos), não ficaria um tanto desgastado e desesperado?Mas nós não ficamos: inspiramos e expiramos a todo momento, sem pensar a respeito. Ficamos desgastados e desesperados com outras expectativas. Quando o ar nos falta, porém, onde elas estão?

Os quatro votos são assim: uma promessa e uma aposta, aposta de que mesmo que seja impossível e infinito, eu vou até o fim. Mesmo que não tenha potinho de ouro atrás do arco-íris, mesmo que não sejamos recompensados pela nossa virtude. Um bodhisattva desce aos "infernos" para "ajudar" os seres, mas esta descida não deve ser vista como um ponto a mais no currículo bodhisátvico. "O que isto me trará de bom?" é a pergunta que automaticamente invalida o bodhisattva, onde quer que ele esteja.

É esta mesma mente que vê o zazen como um meio e o Despertar como um fim, e que se irrita ou não compreende os quatro votos. Os dois, zazen e Despertar, estão muito entrelaçados, evidente; resta, porém, uma pergunta na multidão: depois do Despertar, então, não é necessário mais zazen (já que conseguimos o que queríamos)? A resposta não pode partir de mim, ela parte de Dogen: a prática é infindável, a (com)provação sempre se aprofunda mais e mais. Isto te deixa tonto?

Verso do moppan


生死事大
無常迅速
光陰可惜
時不待人

Vida e morte são grandes questões;
tudo passa rápido.
Gastar dias e noites é uma lástima;
o tempo não espera por ninguém.

Esta é uma tradução livre do verso recitado no toque do moppan, a plaquinha de madeira da foto, encontrada em um centro de prática zen. O verso é recitado no final do dia, ao término do último período de zazen. No começo tal admoestação para "não gastar a vida" me irritava: viver a vida não é joga-la fora. Do que essa gente tinha medo ou pressa? Agora, no entanto, ouço apenas uma voz firme, porém carinhosa, que me diz "a hora é agora".

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Nós continuamos tentando


II.46. sthirasukham āsanam

"Āsana: estar firmemente estabelecido em um espaço 'feliz'" (segundo a tradução muito bonita de Gérard Blitz).

sthira: firme, sólido, durável
sukha: bem-estar (felicidade)
āsana: postura

"Āsana: être fermement établi dans un espace heureux" (selon la très belle traduction de Gérard Blitz).

sthira: ferme, solide, durable
sukha: bonheur
āsana: posture

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Fukanzazengi

Abaixo, algumas primeiras linhas do texto do Fukanzazengi (普勧坐禅儀) de Dōgen Zenji, interpolado.

Na primeira linha temos o texto “original” (原文), que não sei de qual das versões é (shinpitsu- ou rufu-bon, provavelmente a última) encontrado aqui.

Na segunda linha está a frase acima em japonês moderno, encontrado também aqui e em um folheto da CZBF; os parênteses são a leitura em hiragana dos ideogramas anteriores, uma alternativa ao furigana.

Abaixo a romanização (da segunda linha), tirado do mesmo folheto. Os colchetes indicam divergências: os [] indicam texto do folheto que difere (da outra fonte) do caractere imediatamente precendente, e os {} apresentam texto da página online que difere do folheto da mesma forma.

A quarta linha é a tradução do pessoal de Antai-ji, e a quinta linha é a tradução em português do pessoal do Busshin-ji. Várias outras traduções estão disponíveis.

原夫道本圓通、爭假修證。
原(たず)ぬるに[、]夫(そ)れ道本円通(どうもとえんづ[ず]う)、争(いか)でか修証(しゅしょう)を仮(か)らん。
tazunuru ni sore dō moto en zū, ika de ka shushō o karan.
The Way is originally perfect and all-pervading. What need is there for practice and realization?
Quando se busca a fonte do caminho, percebe-se que ele é absoluto e tudo permeia. É desnecessário distinguir entre “prática” e “iluminação”.

宗乘自在、何費功夫。
宗乗(しゅうじょう)自在[、]何ぞ功夫(くふう)を費(ついや)さん。
shū jō ji zai nan zo ku fū o tsuiya san.
The Dharma vehicle is rolling freely. Why should we exhaust our effort?
O ensinamento supremo é livre, então por que estudar os meios para alcançá-lo?

況乎全體逈出塵埃兮、孰信拂拭之手段。
況んや全体逈(はる)かに塵埃(じんない)を出(い)づ[ず]、孰(たれ)か払拭(ほっしき)の手段を信ぜん。
iwan ya zan tai haru ka ni jin nai o izu, tare ka hosshiki no shu dan o shin zen.
There is no speck of dust in the whole universe. How could we ever try to brush it clean?
O caminho é, desnecessário dizer, muito diferente da delusão. Por quê, então, preocupar-se com os meios de eliminá-la?

大都不離當處兮、豈用修行之脚頭者乎。
大都(おおよそ)当処(とうじょ)を離れず、豈{に}修行の脚頭(きゃくとう)を用ふる者[もの]ならんや。
ō yoso, to jō o hanarezu, a ni shu gyō no kyakutō o mochi uru mono naran ya.
Everything is manifest at this very place. Where are we supposed to direct the feet of our practice?
O caminho está completamente presente onde você está, então para que servem a prática e a iluminação?

sábado, 6 de junho de 2009

Tédio


Nada é mais insuportável ao homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem atividades, sem distrações, sem aplicações. Ele então sente seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Sem se controlar ele deixa sair do fundo da sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, o desapontamento, o rancor, o desespero.

Rien n'est si insupportable à l'homme que d'être dans un plein repos, sans passions, sans affaire, sans divertissement, sans application. Il sent alors son néant, son abandon, son insuffisance, sa dépendance, son impuissance, son vide. Incontinent il sortira du fond de son âme l'ennui, la noirceur, la tristesse, le chagrin, le dépit, le désespoir.


Quando fiquei, uma vez, a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e sofrimentos a que se expõem, na corte, na guerra, onde nascem tantas brigas, paixões, empresas difíceis e frequentemente ruins, etc., eu descobri que todo o mal dos homens vem de uma só coisa, que é a de não saber ficar em repouso em um quarto.

Quand je m’y suis mis quelquefois, à considérer les diverses agitations des hommes et les périls et les peines où ils s’exposent, dans la cour, dans la guerre, d’où naissent tant de querelles, de passions, d’entreprises hardies et souvent mauvaises, etc., j’ai découvert que tout le malheur des hommes vient d’une seule chose, qui est de ne savoir pas demeurer en repos dans une chambre.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Não jogue fora os seus acentos, não (pelo menos não tão cedo...)

(se você não consegue ler muitas das fontes deste post, provavelmente você tem problemas de codificação. Não é necessária nenhuma fonte especial.)

Todos nós, praticantes zen-budistas - ou simpatizantes - temos que forçosamente aprender a fonologia de línguas estranhas e, muitas vezes, mortas.


Japonês, chinês arcaico, até mesmo sânscrito, dão suas caras nos vários textos, sutras e fórmulas com que nos deparamos, tantas vezes. Tantos de nós, que sequer chegamos a aprender latim na escola, como era comum décadas atrás, temos que nos virar com línguas que, muitas vezes, apresentam regras incomuns de acentuação e pronúncia.

Incomuns, certamente, mas incomuns para o falante habitual de português. Se já estranhamos a fala de nossos compadres portugueses, como não haveríamos de estranhar a fala de gente - e língua - morta há tanto tempo?

Não se preocupem, porém: várias pessoas ocupam grande parte da sua vida em estudar este tipo de problema. Filólogos, fonólogos, historiadores das línguas, linguistas, psicolinguistas e demais enfurnam-se em tabelas e textos e apresentam algumas coisas interessantes que podem ser de valia.

Algum de vocês tem o dicionário Houaiss em casa? Espero que sim, é um excelente pai-dos-burros. Procurem qualquer palavra. Vejam, do lado, entre colchetes, uma palavrinha com letras que podem ser familiares, mas são estranhas. Esta palavrinha é uma transcrição da palavra para o alfabeto fonético internacional da IPA.

É interessante passar uma tarde de um feriado nublado, como este, dando uma olhada em uma animação de flash mostrando os vários sons possíveis. Dá uma idéia da variedade de sonoridade das línguas, e nos relembra a dificuldade que temos em assimilar um som novo - principalmente quando ele não é parte da nossa lingua mater.

[Eu prometo: tentem aprender a ler sânscrito transliterado, com uma pessoa de sua escolha. Dá bons momentos de risada. Podem fazer escondido dos amigos.]

Transliterado? Sim, transliterado. Transliteração é o processo de converter um sistema de escrita em outro. Não digo converter um alfabeto (a, b, c, d, e...) em outro, pois embora latim e grego sejam sistemas de escrita de alfabeto, o sânscrito (devanagari) é um sistemas de escrita de silabário (ba, be, bi, bo, bu, bha...), e o japonês é muito parecido, neste aspecto.

Já a transcrição é a conversão de um sistema de sons em outros sistema de sons. A palavra francesa vin já está transliterada para a alfabeto português; ela pode, também, ser transcrita, como /vã/, ou como /vɛ/, no já mencionado alfabeto da IPA. A pronúncia é importante: gato pode ser transcrito, dependendo da sua pronúncia, como /gatu/. É mais fácil encontrar quem fale /gatu/ que /gato/.

Maka Hannya Haramita

Tomemos, então, o título dos versinhos que sabemos de cor, carinhosamente chamado de "Maka hannya" - não entremos no texto, pois a discussão se alargaria até os confins do mar ocidental. Maka hannya haramita é escrito com kanjis - ideogramas - japoneses, mas não se trata de palavras japonesas, mas sim de uma transliteração de um termo em sânscrito - maha prajñā pāramitā - baseada em uma transcrição. Soa difícil? Não é.

Os japoneses não tinham um sistema de escrita próprio até por volta do século IV da nossa era. Embora tivessem uma língua local, eles tiveram que tomar emprestado dos chineses os ideogramas para poder escrever a sua língua (a mesma coisa aconteceu com os antigos habitantes da Grécia, que importaram o recém-criado alfabeto fenício). Neste empréstimo ocorreu algo engraçado: muitos ideogramas adquiriram uma leitura dupla, a chinesa e a japonesa. A leitura chinesa (on'yomi) é utilizada até hoje, e de um modo especialmente importante para nós: o "maka hannya", muitos dos sutras, o nome dos mestres (na linhagem), o nome do nosso zendô (man ge san - 萬華山) e os nossos nomes-do-dharma são lidos com a leitura on.

Seigaku, por exemplo, é formado por dois ideogramas (静学) lidos em on'yomi. O sei de Seigaku muito provavelmente não é o mesmo do sei de Seidô, ou de Seikan, ou de Seigen. A única coisa que poderia dizer se são o mesmo é o ideograma: se for o mesmo ideograma, tem o mesmo significado. Se não, são palavras homófonas, com o mesmo som, mas significados diferentes - e o japonês é conhecido por sua extrema homofonia. Mesmo a procura num dicionário simples dá mais de duas dúzias de ideogramas cuja leitura é sei, e quase sessenta cuja leitura é gaku. Para dar uma idéia, é difícil encontrar mais de três palavras homófonas em português.

Para complicar, há também a leitura japonesa (kun'yomi) de cada ideograma. gaku tem a leitura kun como manabu, por exemplo. A leitura japonesa, porém, não significa que a leitura chinesa (on) não possa ser usada no japonês moderno. A universidade Komazawa, onde Kodo Sawaki deu aulas, é 駒澤大學, komazawa daigaku (daigaku pode ser lido como "grande ensino, grande erudição" - universidade).

O da Sodô (祖道 - "caminho dos patriarcas") é o mesmo de aikidô (合気道), e significa "caminho" (dao/tao em chinês), que é o mesmo de bushidô, de chadô, de iaidô, e até mesmo de Dôgen (道元). É o mesmo ideograma. Já sôdô (僧堂) - um nome dado para o recinto de meditação, como zendô (禅堂) - é outro ideograma e, portanto, outro significado: sala, recinto ("dos monges" ou "do zen", respectivamente). Enfim, muitos kanji com uma leitura /dô/: mais de 130 no mesmo simples dicionário.

Para brincar mais um pouco: "eletricidade estática" é seidenki (静電気), "parada eletricidade energia", o mesmo sei de seigaku e o mesmo ki de aikidô, uma palavra japonesa atual com uma leitura totalmente on'yomi. Será que existirá um seidenkidô (静電気道), um caminho espiritual da eletricidade estática?

Ho é diferente de que é diferente de hôô

Muitas línguas, ainda hoje, usam uma distinção que não costumamos usar no português: vogais duplas. O japonês atual é uma delas.

O latim clássico, por exemplo, da mesma forma que o grego antigo, usava esta distinção entre vogais duplas não somente para distinguir palavras, mas também para fazer a métrica poética. Com o passar do tempo, na evolução do português, a nossa maneira de fazer métrica mudou para a alternância de força das sílabas - sílabas tônicas; mas as sílabas tônicas são derivadas das vogais duplas de outrora.

O sânscrito também usava vogais duplas. Voltemos ao nosso exemplo: prajñā pāramitā. Este traço acima de três "as" é chamado macron, e foi um acento criado justamente para mostrar a duplicação do som de uma vogal. Duplicar uma vogal, dependendo da língua, é aumentar um pouco a duração dela, mas não muito. Na notação musical não se costuma botar um ponto ao lado de uma nota para aumentar em metade a sua duração? Uma vogal dupla funciona mais ou menos assim.

Podemos falar "gato" com as duas sílabas rápidas, com a mesma duração, ou então podemos duplicar o a. Costumamos fazer isto, mas não nos percebemos e nem chamamos de vogal dupla, pois não há uma outra palavra "gato" que difere na duração das vogais e que tenha outro significado, no português. /Gato/, /gāto/, /gatō/ e /gātō/ são somente maneiras diferentes - umas um tanto estranhas - de falar a mesma palavra.

Isto, porém, não é sempre assim. No japonês não é a mesma coisa falar ho (火) e (方), e muito menos hōō (凰).

Alguns já devem ter visto a já conhecida palavra arigatou (ありがとう) escrita assim, com ou no final, e em outros lugares arigatô, ou arigatō. São apenas formas diferentes de mostrar que a última sílaba é um pouco mais longa, como a nossa forma engraçada de falar gato, ou um francês falando de um bolo de arroz (sic), ou um japonês na Liberdade mostrando pro gato onde está a ração - ou também, é claro, alguém dizendo "obrigado" em japonês.

Neste sentido, nosso amigo Yôkô, com suas duas vogais duplas - perdoem-me se eu estiver errado - poderia ser referenciado, a partir de hoje, como Youkou. Teríamos nossa Sodou, o monge Meihou Genshou, ou o Seidou; praticaríamos aikidou, comeríamos com o ouryouki e nos sentaríamos no zendou.

A questão é que existem mais ou menos três sistemas atuais para a transliteração do japonês, o rōmaji. Um dos mais antigos utilizava este ou para descrever um o longo. O mais utilizado no ocidente, o sistema Hepburn (e suas variantes), coloca o macron (ā, ō) como símbolo de vogal dupla. Há outros dois sistemas no próprio Japão que utilizam o acento circunflexo (â, ô) para o mesmo propósito. Como nos teclados atuais é muito mais fácil digitar um circunflexo do que ficar procurando um macron na tabela Unicode, é evidente que o circunflexo pegou.

Quando lemos zendô, portanto, estamos lendo zendō: não uma vogal fechada, como o nosso /vô/ ou /metrô/, mas sim uma vogal dupla.

De volta, e lá de novo

E então voltamos ao "maka hannya", assim como os japoneses voltaram-se para os chineses.

O texto original é uma cópia em sânscrito que vai para a China e começa assim: ārya-avalokiteśvaro bodhisattvo mahāsattvo gambhīrāyā prajñāpāramitāyā caryā caramāa eva vyavalokayati sma pañca-skandhās... (o nobre bodhissatva mahassatva Avalokiteshvara, enquanto praticava prajnaparamita, viu que os cinco skandhas...)

Ela passa por um monte de traduções na China, e assim vai para o Japão, onde é lida - até hoje - com os caracteres chineses (chin: hanzi; jap: kanji) com a pronúncia chinesa importada (on'yomi).

Muitas das palavras no sutra encontram traduções disponíveis no "jachinês" da época: olhos, ouvidos, vazio, forma, etc. Detalhe para mārgā, o "caminho (óctuplo)", que é traduzido como 道 (chin: dao/tao, jap: ). Já os conceitos complexos vindos diretamente do sânscrito, linguagem filosófica, são inteiramente transliterados usando a forma da época, já que não encontravam correspondentes no japonês.

Atualmente os japoneses dispõem de dois "silabários", o hiragana e o katakana, (além do rômaji) para escrever. O hiragana são aqueles traços mais simples vistos em grande parte da escrita japonesa, e servem, em conjunção com os kanji, para conjugar verbos, declinar nomes, preposições, etc. Katakana é mais utilizado para transliterar palavras estrangeiras, entre outras tantas coisas.

Este truque não estava disponível para o pessoal daquela época, que então tiveram de fazer outra coisa, muito mais imaginativa. Maha prajñā pāramitā é transliterado, na fonética japonesa, como ma ka han nya ha ra mi ta e cada sílaba recebe um kanji, na leitura on'yomi, que não carrega significado, mas vale pelo seu som, seu valor fonético, sem nenhuma ligação "lógica" com a idéia. Estes kanjis que são usados pelo seu valor fonético recebem, muitas vezes, o nome de ateji. O mesmo acontece com anuttarā samyak sambodhi, "iluminação completa, perfeita e universal", que vira a noku ta ra san myaku san bo dai.

Sem esquecer, é claro, do exemplo mais óbvio: o "grande", "divino" e "incomparável" mantra, gate gate pāragate pārasaṃgate bodhi svāhā, que transliterado é gya te gya te ha ra gya te hara sō gya te bo ji so wa ka.

Enfim, é tão difícil para um japonês moderno entender quanto para a gente.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Para você...

O zazen, ele é bom para quê? Para absolutamente nada! Este “bom para nada” deve penetrar na sua carne e nos seus ossos, até que você esteja verdadeiramente praticando o que é bom para nada. Até este momento, seu zazen é realmente bom para nada.

***

Se não tomar cuidado, você gastará toda a sua vida fazendo nada, a não ser esperar que as suas expectativas de pessoa normal sejam realizadas um dia.

***

Você quer tornar-se um buddha? Não há necessidade de tornar-se buddha! Agora é simplesmente agora. Você é simplesmente você. E me diga: já que você quer ir embora do lugar em que se encontra, para onde, exatamente, você quer ir?

***

Acima, exemplos da conhecida verve de Kodo Sawaki roshi.

Em breve, disponibilizarei a tradução em português dos textos do Sawaki que estão disponíveis no maravilhoso çaite de Antaiji, o "templo da paz" (com autorização). Quem quiser conferir no inglês (ou japonês, ou italiano, ou francês...) dá uma olhada. Preciso apenas dar uma revisada em tudo e tornar a coisa mais palatável. Não estou com pressa, até porque não estou com muito tempo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Traduções


As traduções brasileiras de textos do zen deixam muito, muito a desejar. Neste, e nos próximos textos, eu vou esclarecer o porquê.

Em muitas delas, eu somente posso acompanhar o processo da metade para a frente: do japonês, que não entendo, ele vai para o francês ou inglês, digamos, e depois é retraduzido para o português - e é neste segundo passo que consigo perceber a inépcia, em muitos casos. Fico imaginando as barbáries que podem acontecer nas primeiras traduções "oriente-ocidente" e temo e tremo.

Eu brinco, evidentemente. Costumo partir do pressuposto que os tradutores são pessoas que desejam traduzir o texto e possuem, além de um certo conhecimento formal do processo, uma idéia do que o texto fala, para o momento - que certamente aparecerá - em que o tradutor escreverá algo de seu, por não poder traduzir sem trair.

A questão é que más traduções podem, muitas vezes, ser bem menos desejáveis do que texto nenhum. Para quem tem paciência de encarar o texto supostamente mal-traduzido e quiser pesquisar e saber mais, há, pelo menos, um pouco de tesão e divertimento no meio. É, divertimento intelectual, pode soar estranho mas há. Mas para aqueles que querem ler, pura e simplesmente, e ter acesso ao que um mestre do zen disse, ou deixou de dizer, pode ser um grande impedimento.

Penso especialmente em Dogen. Dogen é um escritor fabuloso, do pouco que pude captar, de um estilo único e delicioso que interessaria, em alguns casos, até mesmo a quem não quer ouvir falar de budismo ou zen. Textos claros e simples, escritos para discípulos, leigos ou não, misturam-se com trechos de poesia e técnica e visão assustadoramente modernas, e dez páginas adiante você pode encontrar uma confissão no melhor estilo augustiniano, para então, em outro lugar, ver instruções detalhadamente obsessivas sobre como escovar os dentes e demais quetais de um mosteiro.

(continua...)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Sobre "eu"

Esquema desenhado por Freud, mostrando a disposição das instâncias no aparelho psíquico

Longa postagem, escrita a um terceiro, sobre a noção de "eu". O trecho de Bettelheim vale a pena.

[....] seguindo a nossa conversa sobre o "eu" na psicologia, aqui vai um trecho do livro do Bruno Bettelheim, Freud e a alma humana, em que ele critica extensivamente a tradução americana dos escritos de Freud, como apropriação da psicanálise pelos médicos. Os colchetes são meus.

Somente o desejo de perceber a psicanálise como especialidade médica pode explicar por que três dos novos conceitos teóricos mais importantes de Freud foram traduzidos não para o inglês, mas para uma linguagem cujo uso mais corrente, hoje, talvez seja a de redigir receitas médicas. Freud conceituou a organização da psique [algumas páginas antes B. discutia a tradução de seele e seelisch - alma e "anímico", termos que Freud usa (como seelisch apparat, aparato psíquico) - como mental ou psíquico] dividindo o seu funcionamento nas áreas do consciente, do pré-consciente e do inconsciente. Os processos psicológicos que ele examina são pessoais e internos [psicanálise como "introspecção"]. Ao denominar dois dos conceitos, Freud escolheu palavras que estão entre as primeiras usadas por toda criança alemã. Para referir-se ao conteúdo desconhecido, inconsciente, da mente, escolheu o pronome pessoal es (em inglês it, pronome pessoal neutro na 3 pessoa do singular) e usou-o como substantivo (das Es). Mas o significado do termo the it só adquiriu seu total impacto depois que Freud o usou em conjunto com o pronome ich (em inglês I), usando-o também como substantivo (das Ich). Seus significados intencionais encontraram expressão clara no título do livro - Das Ich und das Es - no qual definiu esses dois conceitos, pela primeira vez, como contrapartes recíprocas. A tradução desses pronomes pessoais para seus equivalentes latinos - o "ego" e o "id" - em vez dos ingleses I e It converteu-os em frios termos técnicos que não suscitam qualquer associação pessoal. Em alemão, é claro, os pronomes estão dotados de profunda significação emocional, pois os leitores usam-nos durante a vida toda; a escolha cuidadosa e original de palavras por Freud facilitou a compreensão intuitiva do seu significado.

Nenhuma palavra possui conotações maiores e mais íntimas do que o pronome "Eu". É um dos vocábulos mais frequentemente usados em qualquer língua falada - e, mais importante ainda, é a mais pessoal das palavras. Traduzir Ich como "ego" é transformá-la em jargão que deixa de transmitir o envolvimento pessoal que há quando dizemos "eu" ou "meu" - para não mencionar nossas lembranças subconscientes da profunda experiência emocional que tivemos quando, na infância, nos descobrimos a nós próprios ao aprender a dizer "eu" [Lacan que o diga, com o "estádio do espelho como formador da função do eu"]. Ignoro se Freud conheceria a afirmação de Ortega y Gasset de que criar um conceito é deixar a realidade para trás; mas ele tinha certamente consciência dessa verdade e tentou evitar este perigo até onde lhe foi possível. Ao criar o conceito de Ich, vinculou-o à realidade usando um termo que tornava praticamente impossível marginalizá-la. Ler ou falar sobre o Eu obriga uma pessoa a olhar-se introspectivamente. Em contraste, um "ego" que usa mecanismos nitidamente definidos, como o deslocamento e a projeção, para atingir seus fins na luta contra o "id", é algo que pode ser estudado de fora, observando-se outros. Com esta tradução imprópria e - no que tange à nossa reação emocional a ela - francamente enganadora, uma psicologia introspectiva converte-se numa psicologia behaviorista, que se dedica à observação a partir do exterior. E é exatamente assim que a maioria dos americanos vê e usa a psicanálise. [rixa da psicanálise européia contra a americana; Lacan critica o uso adaptativo - fortalecedor do "eu" - das escolas recentes de psicanálise americana]

A palavra "ego" era usada na língua inglesa de múltiplas maneiras, muito antes de os tradutores de Freud apresentarem-na como conceito psicanalítico. Esses usos, que ainda são parte da língua viva, são todos pejorativos, como "egoísmo", "egoísta" e "egotismo". (Uma expressão de gíria de origem mais recente - "ego trip" - também é pejorativa.) Isso é igualmente verdadeiro de seus cognatos alemães - o substantivo Egoist e o adjetivo egoistisch. Freud, como todas as pessoas de fala alemã, estava familiarizado, evidentemente, com a conotação depreciativa de conduta interesseira que a raiz "ego" suscita.

Eu acho que a psicanálise oferece uma das mais vívidas discussões sobre a questão do eu - sua gênese e suas vicissitudes. A razão é, de certa forma, simples. A história da psicologia científica, desde o seu começo no final do século XIX até hoje, segue um padrão simples: introspecção versus observação, herança da dicotomia filosófica em voga no começo da psicologia como ciência. O objeto de estudo da psicologia, como te disse em uma mensagem muito tempo atrás, nunca foi realmente "delimitado": cada escola tem o seu, de preferência excluindo o da escola "oposta". Não dá para dizer, portanto, que a psicologia estuda a alma ou a mente humana, como o nome poderia sugerir, a não ser que possamos definir "psique" de uma forma que abranja psicanalismo, behaviorismo, humanismo - as três "ondas" principais que varreram a psicologia - e os diversos outros.

Mas há coisas interessantes. O comportamentalismo atual pensa a "consciência" como comportamento operante "internalizado" - um comportamento operante que reflete e atua sobre comportamento operante. O senso de "eu" seria uma forma de comportamento verbal "internalizado". O comportamentalismo assume o pressuposto corajoso de excluir qualquer "interioridade" do seu discurso - o que vale é o que pode ser observado.

As diversas escolas de psicoterapia foram, de certa forma, uma resposta à psicanálise. Aliás, a psicanálise mudou o quadro da psicologia como um todo, este Freud safado. Os primórdios da psicologia científica - cientifica é importante aqui, houve muita "psicologia filosófica" durante séculos - começaram com uma busca das leis do psiquismo. A psicofísica de Fechner e o laboratório de psicologia experimental de Wundt foram o estopim para o começo da psicient. As psicoterapias, contudo, tiveram todas elas um parentesco - mesmo que renegado ou dissimulado - com a psicanálise. Mesmo que tenham nascido da crítica da psicanálise, elas reformulam conceitos e protocolos psicanalíticos. É uma situação deveras esquisita, pois a psicanálise nasce do campo da medicina e da filosofia, com o toque de gênio do Freud, e as psicoterapias se apóiam na psicologia. De certo modo, qualquer escola psicológica pode gerar uma forma de psicoterapia - e consequentemente uma visão de homem. [Ou vice-versa, não é?] Assim, as maiores discussões sobre "personalidade" surgem das escolas psicoterápicas - talvez porque sejam elas as que lidam com as pessoas em maior escala, e não com fenômenos psicológicos como atenção, atitude ou memória.

Tomando o exemplo da gestalt-terapia, que define o "ego como fronteira de contato entre o organismo e o meio", e as neuroses como "deformações ou cristalizações" nesta fronteira de contato. De certo modo, é uma diferenciação pequena do conceito freudiano de eu como uma especialização do isso em contato com a "realidade", com um ponto de vista filosófico mais atual, com o surgimento da cibernética e da fenomenologia.

O trecho acima, do Bruno, é importante neste sentido, de tornar o conceito freudiano mais naïve, mais inocente, menos especializado. O eu da psicanálise é o eu que diz eu, tomado na teoria como uma "instância" do "psiquismo", mas todos sabemos do que se trata. Este é um traço que admiro nos grandes filósofos: quando se conceitua sobre impressões, idéias, afetos, todos sabemos do que se trata. O que eles farão e dirão sobre isto é o que é muitas vezes impensado.