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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Grande dúvida

Deves duvidar profundamente, sempre e sempre, perguntando a ti mesmo o que poderia ser o sujeito que está ouvindo. Não preste atenção aos vários pensamentos ilusórios e ideias que possam te ocorrer. Apenas duvide mais, e mais profundamente, concentrando em você toda a força que há dentro de ti, sem mirar em coisa alguma e sem esperar nada em adiantado, sem pretender ser desperto e sem nem mesmo pretender não pretender ser desperto; torne-se como uma criança em teu próprio peito.

Takasui, mestre zen (rinzai?) japonês, século XVII

Não é interessante, a última frase?

Dizem que para a prática do zen é preciso uma grande confiança/fé, uma grande dúvida e uma grande determinação. Hakuin é outro mestre rinzai que enfatiza a "dúvida", especialmente na prática com kōan.

Nusuth, como diriam os handdaratas de Gethen.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Pequena nota sobre Hakuin

Acho que era mesmo Hakuin. Quando criança, ele escutou uma palestra do pessoal do Nichiren sobre os "infernos" - não parece alguns padres católicos? - e ficou morrendo de medo. Mal conseguia dormir de noite, durante alguns dias. Perguntou pra sua mãe o que poderia fazer para não ir parar no inferno, e ela respondeu que ele deveria prestar devoção para um deus xintoísta lá.

Então Hakuin vira monge aos 14 por causa do medo do inferno, pensando que um monge/sacerdote poderia escapar dos "fogos do inferno". O que só piora quando ele descobre, com 18, que um mestre zen chinês, Ganto Zenkatsu, foi morto por bandidos, e que seu grito pode ser ouvido por muitos quilômetros. Até mesmo Ganto, talvez santo - péssimo trocadilho - podia ser morto cruelmente por bandidos. Como ele, Hakuin, poderia então escapar do inferno?

(Más notícias para ele: Nagarjuna também foi esfaqueado e morreu. Os discípulos dele queriam saber quem tinha feito isto, e Nagarjuna se recusou a dizer quem foi.)

Muita coisa de Hakuin nesta página.

Aliás, eu de vez em quando penso (um gedankenexperiment): se, "na pior das hipóteses", existe um inferno - um lugar de sofrimento e dores intermináveis, ou pelo menos de duração muuuuuuuuuuito longa, em algum momento a dor seria nossa vida cotidiana, e talvez aprenderíamos a viver com ela - existe um limiar de dor, você não sabia? A não ser, é claro, que o genie malin fosse esperto o suficiente para saber que o pior inferno é aquele que modula dores e falta de dores, para lembrar que a dor existe e é forte (lembra Freud e o conceito de prazer/desprazer como simples diferença de "tensão"). Mas, se for assim, talvez já estejamos nele, e até mesmo banhos quentes e barrigas cheias podem ser provações terríveis.